Porque eras bonita, de uma beleza benquista, e porque me olhavas com olhos de conquista, cigana de alquimias palavras segredos zelos precisos. velha fiandeira de início de manhã, artimanhas ou arquimanhãs Enquanto eu tateava o mundo à beira como uma criança confusa, lavando nos seus olhos dos meus olhos a recusa de ver – não a ti, oblíqua ubígua sacrassenhora de talentos todos, mas a mim, diante do espelho curvo que projetavas na sala, curvada sobre livros, distraída, enquanto. Aterrorizado de prazer eu me admirava com a curiosidade de um bebê.
Porque eras impetuosa, e pretensiosa confessava-te sem rubor uma princesa fabulosa, e dizias que era escritora, branca de neve, dançarina espanhola, taróloga, mágica, monstra ou bruxa dadivosa, fada, iluminada, meio fim de inícios distintos, promessa de labirintos, senhora de jóia rara no centro dos sentidos.
Porque descobri num armistício comigo que eras mesmo tudo isso, e me encantei por um dia de verão que me prometia solstício, enfim, sem me importar com qualquer punição se tivesse sobre mim a tua mão.
Porque tuas palavras faziam sentido, e arquitetavam abrigo à criança desavisada, perdida na estrada do nada ao nada, esquecida, menosprezada, enquanto longe e depois as carpideiras fruiam seu trabalho inútil, que nada afinal vivificava. E diante tremi, como ao assombro da cilada, na soleira da estrada então apenas imaginada, até que corporificada em ti. Permiti, arrebatado, que meus sonhos sonhassem enfim, em você, a mim.
Porque com uma lágrima silenciaste todas as outras lágrimas, e porque quando telefonei choraste como quem pede para ser amada, e porque a criança afastada – a musa soterrada – em apelo inesperado uniu pelas mãos os corações num esteio inquebrável, e porque era maior do que eu não resisti. E porque depois de cada lágrima eu sorri.
Porque soprassem os ventos os sinos, anunciassem os tremores sob os pés forças da natureza invisíveis, inescapáveis sismos.
E porque sou homem. E porque és mulher. E porque amamos.

Lindo, indeed.