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Não sei quantas almas tenho – Fernando Pessoa

Não sei quantas almas tenho.
Cada momento mudei.
Continuamente me estranho.
Nunca me vi nem acabei.
De tanto ser, só tenho alma.
Quem tem  alma não tem calma.
Quem vê é só o que vê,
Quem sente não é quem é,

Atento ao que sou e vejo,
Torno-me eles e não eu.
Cada meu sonho ou desejo
É do que nasce e não meu.
Sou minha própria paisagem;
Assisto à minha passagem,
Diverso, móbil e só,
Não sei sentir-me onde estou.

Por isso, alheio, vou lendo
Como páginas, meu ser.
O que segue não prevendo,
O que passou a esquecer.
Noto à margem do que li
O que julguei que senti.
Releio e digo :  “Fui  eu ?”
Deus sabe, porque o escreveu.

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sol e aço – mishima

Quando repasso atentamente minha infância, me dou conta que minha memória das palavras começa muito antes da minha memória da carne. Na pessoa comum, imagino, o corpo vem antes da linguagem. No meu caso, antes vieram as palavras; então – pé ante pé, com toda a aparência de extrema relutância, e já vestida de conceitos – veio a carne. Já estava, nem é preciso dizer, estragada pelas palavras.
Primeiro vem o pilar de madeira pura, depois os cupins que o comem. No meu caso, os cupins já estavam lá desde o começo, e o pilar de madeira pura só emergiu mais tarde, já meio carcomido.

Publicado em biblioteca

cozinha

Fome. Banquete de unhas que treplicam o estômago. Quando foi que comi a última vez? Que catequese tentam fazer, se pela tv? Preciso trocar a borracha, preciso limpar o mofo do banheiro, sacar um dinheiro, chamar o chaveiro, selar meu destino. Rosbife, maionese. Pão gelado. Mas tem o cheiro dela também, do cabelo e do esmero, resquício de seu cheiro na cozinha, ninando os pratos, embalando saleiros, misturando temperos.

Publicado em fragmento

manicure

Toma nas mãos a lamparina, alisa o tecido verde e vermelho de mil toalhinhas, passa-me às mãos o embrulho fumegante que, a contragosto, acolho como um bebê pestilento que se cria na esperança dúbia de que possa vingar-e-nos-salvar do ventre da miséria de onde saíra.

DE US, ela falava, incessantemente, manipulando as setenta e duas contas de sílabas estaladas contra os dentes: De-us. NossSenhora, toda’arcanjia. [mas para mim a zombeteira certeza d'Ele exilado em nuvens donde cuidava zelosamente de suas divinas unhas, do que tantas vezes daria prova ainda, lançando sobre as nossas cabeças as farpas afiadas de sua incessante manicure.]

LouvadoSejaNossoSenhorJesusCristo, pulsa a voz da matriarca à saída, beijando o dorso da mão diante dos 22 retratos inquisidores nas paredes da sala de poucos móveis, pouco pó, poucas baratas.

Rastejo, contudo, rasteiro e decidido. Meu exoesqueleto brilhante ainda, pronto para os subsolos do mundo.

Faço o sinal da cruz como um gato afogando-se n’aquário repleto de peixes dourados.

Assim seja.

Publicado em ficções, fragmento

sucessão de primeiras vezes.

…, em sucessão de espirais úmidas, sucessão de cirandas de brisa de sorriso lágrima acaso esforço medo delírio certeza. sim. [e sim.] todos os dias uma escolha, a cada minuto, sobrepondo-se ao absurdo – tirando, meu amor, o absurdo para dançar.

sucessão de primeiras vezes.

guerra dentro da gente, guerra permanente. tateamos no escuro, até que se amornam os mundos num toque de mão. [a menina mais bonita segura a minha mão.] avancemos sobre ladrilho avancemos sobre pedra avancemos sobre mato avancemos sem parar até que em cada cova chegue a terra orvalhada do nosso encontro, o grão

do início do mundo.

avançamos. armistício e vem deitar no meu colo, ronronar macia, desfazendo-se das velhas tapeçarias empoeiradas nó por nó, ponto por ponto [restar um fio apenas, amor, e tudo o que precisamos para deitar atrás o aterrador labirinto que se vai borrando à paisagem matutina, à luz do dia, que, avassaladora, vinga].

como a semente, o grão, vinga em todos os poros de todos os bosques, canteiros, florestas, ladrilhos, intervalos e suspiros em que deitamos terra.

apaziguados olhamos para cima, corpos nus feitos de terra, mãos enraizadas n’extensões infinitas – vida que recomeça. colados à terra, escavando mundos, brincando fluxos tempo fome comunhão descoberta.

duas sedes.

faço-me enfim terra, ansiando o debruçar sutil de folhas e pétalas sobre a carne apaziguada. dia, lua, relâmpago, vento, orvalho-tempestade; sucessão de primeiras vezes.

Publicado em autobiografia sem factos, fragmento, memória

atravessado.

a porta nos detém [ou convida?]. promete. pensamos, por um instante, se: alvíssaras. Ou vísceras? A travessia é sempre difícil, no entanto

é preciso exatamente isto: atravessar, a porta.

pesada. a travessia não é uma passagem. atravesso-a com dificuldade, deixando que suas farpas penetrem a carne delgada, arranhando-me nas assimetrias, abrindo-me também a ela, eu, o atravessado. amalgamado aos relevos imprevistos, prensa e dispensa, sangue e pele retesada, feito um carimbo sobre a almofada úmida de azuis. uma última farpa.

cada porta deixa uma marca.

Publicado em autobiografia sem factos

atalho

seria mais prático, pensou, abrir logo o pulso esquerdo sobre o teclado reluzente; gotejar e fluidificar, preencher os vãos brancos com seu contraste até que as ideias, como o fôlego, o último suspiro, coagulassem sobre a superfície imaculada da tela, mancha que mapeia dito-não-dito-quisera ter dito, mentira, mito… todas as dimensões do discurso.

e assim, sem palavra,

tudo estaria dito.

 

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bar

torpor lento, espiral que se desenrola preguiçosamente, úmida. movimento de bocas, olhos que desde longe repousam sobre a mesa, olhos que buscam olhos como cães abandonados, farejando extremidades, à procura de mãos.

passa o garçom.

outra bandeja úmida, outro copo gelado, o ruído que se intensifica e subjuga toda a rua; o mundo lentamente encolhendo-se até flutuar semicoberto na espuma de um copo dourado.

passa a menina.

o barulho que aumenta, o músico que desafina, a mesa de poças e vincos e marcas de mãos apreensivas. grita, aumenta o som. o ruído cobre todo o mundo, que desde a espuma do copo afunda – silenciosamente.

o barulho que não cessa não dá trégua um segundo; o ruído do mundo sacode e naufraga no bar.

[o contraste agudo entre o estouro de mil vozes desconcertadas e um silêncio entrincheirado em mim, um silêncio que se afina invisível, ensimesmado, casco de caracol enrolado, morfina e: as gavetas de um guarda-roupas esquecido.]

Publicado em autobiografia sem factos, fragmento

raiz


quando o pai morreu perdeu o chão. demorou a compreender o significado daquilo, demorou mesmo a chorar. seu luto seria lento, muito mais lento do que o dos outros conhecidos, amigos, parentes, contraparentes. passou seco o velório, seco o sepultamento, seco e quebradiço como uma folha caída retornou à pé para casa, atônito e quebradiço, com a espinha daquele grande acontecimento ainda apegada à garganta, com a espinha ainda cheia de carne e textura e cheiros – tantos e tão misteriosos, que.
seus irmãos decidiram cremá-lo. queimá-lo rapidamente, como rapidamente colocaram as cinzas de vestes ossos madeira verniz (e aquela edição dos lusíadas que colocara sob o paletó do pai numa epifania de distração) numa pequena urna acobreada, de onde seguiria para a biblioteca da fazenda, não por uma simbologia especial, como até gostaria de pensar, mas pela falta de disposição, espaço ou – pela falta, enfim. A casa do pai já estava vendida, na cabeça dos irmãos. terreno daqueles, em área que se valorizara freneticamente nos últimos anos, deveria valer mais de meio milhão, fácil. cem mil para cada, no mínimo. com sorte, cento e cinquenta. valia cento e cinquenta. cash.
talvez por ser o caçula, já que tanta coisa se atribuía ao fato de ser o quarto, o fim de linha, talvez por isso seu fogo fosse brando, quase morno – talvez pela falta de acha e carvão na sua vez da fila. nem ardeu como o resto da família nem afogou em lágrimas o carvão daquela agonia. em silêncio foi fazendo a contabilidade, enevoado, com o raciocínio difuso, sem saber se sonho, lembrança, foi ou quisera sido. deixa que eu faço, interveio, enquanto discutiam quem iria à fazenda concluir o serviço. aquela ainda ninguém falara em vender, pedaço miserável de terra no meio do nada. não por isso, contudo, ele sabia. mas porque era ali, na terra dura e improdutiva, que estavam fincadas as mais profundas raízes da família.

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sede

Estou ali [bem aqui]

Estou a meio caminho entre o que me fizeram e o que sou.

O que sou? Vejo meus braços esticados adiante, meus pés calejados, o corpo cravejado de farpas.

Eu estou me fazendo também.

A meio caminho entre o que de mim fizeram, o que de mim fiz. Passado encarnado em tênis modernos e ternos bem cortados. Sopisado. A seis passos de uma mulher, a seis passos da esquina. Encadernado em couro e baixo relevo, com fiapos soltos, avanço. Velho livro, repleto de velhos ensinamentos que não mais permitidos no meu tempo. O meu tempo.

Assumo, não sou, descubro, a essência é mesmo o quê? Graveto em chama branda, fogo morno que se amolda ao recipiente em que a sorte o coloca. Sonho, também. Sede.

Publicado em autobiografia sem factos, memória | 2 Comentários

porvinte/senão

os pés n’noite, recosta-se à pedra à grama molhada. estica os braços, estende, estala todos os dedos das mãos bem-zelosamente [como ontem], espocando faíscas translúcidas no ar parado.

céu fagulhado, noite de apocalipse: alguma coisa sobre nós, pensa, bem lá ‘diante e além: um deus esporra estrelas cravando as patas em brasa sobre o dorso de um outro deus. vida come vida.

A um dá o nome de Sonho; o outro é Porvinte [às vezes Senão]. Dançam e não sabe mais qual sobre qual [pálpebras amolecem antes da imaginação].

Sem aviso adormece numa profundeza de resquícios, dos vesquícios de tudo aquilo – de antes e de então. Esperando

caia

uma estrela nos sólidos de sua mão.

Publicado em autobiografia sem factos, memória

gente.

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